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Crônica de um bi-articulado

É curioso perceber que temos uma incrível capacidade de estar certos. Os outros estão sempre errados. São sempre os criadores de confusão, os baixos, os ignorantes... Mas nós, ah, nós estamos acima de qualquer baixaria. O mundo tem a obrigação de girar ao nosso redor, e qualquer um que se oponha a este conceito não é digno de ser considerado nosso igual...

Ontem, quando fui dormir, chovia um pouco. Mas meu quarto, talvez por ser muito pequeno, é um pouco abafado, e então dormi com a janela aberta. Funciona; às vezes acordo com dor de garganta, mas ontem ajudou bastante a deixar fresquinho o ambiente.

O que não funcionou foi me fazer dormir bem, porque desde que me conheço por gente, não consigo dormir uma noite inteira. E claro, já procurei tratamento para isso, que inclusive está em andamento.

Hoje começou um dia normal. Acordei passando a perna do despertador, apenas esperando ele tocar para ser desligado.

Escovei os dentes, tomei iogurte e um pedacinho de cuque com farofa e algumas especiarias que havia ganhado da namorada ontem.

Me arrumei, passei protetor solar, apesar do tempo nublado, porque afinal, estou em Curitiba.

Descendo para pegar o ônibus (já disse que estou em Curitiba?) deixei passar o primeiro e peguei o segundo, mais vazio, que me conduziria ao terminal do Capão Raso, uma viagem de não mais do que cinco minutos. Coisa de preguiçoso.

Bom, quem conhece a cidade sabe que temos algumas linhas de ônibus expressos, e que apesar dos problemas comuns às grandes cidades, são bem frequentes, acho que a cada cinco minutos passa um.

Uma das linhas expressas da cidade

Por isso, como o segundo ônibus que pego já faz um trajeto maior, eu espero na fila, para poder ir sentado, já que meus joelhos não são um exemplo de vitalidade.

Enfim, sei que quando cheguei no terminal, estava bem vazio, mas em pouco tempo começou a encher, e já sabia que se repetiria a cena que vejo todo dia: pessoas furando a fila do ônibus, desconsiderando o direito de quem está lá a mais tempo.

A essa altura havia apenas uma moça na minha frente. Mas as laterais das filas foram sendo tomadas por espertinhos (ok, geralmente são "espertinhas"), e logo uma delas entrou na minha frente na fila e ficou ali parada. Curioso, uma mulher com uma aparência até de ser gente boa...

Sorri e fingi que não era comigo. Discussão na segunda-feira cedo é praticamente um mau presságio.

Só que a moça que estava em primeiro não gostou. Disse que todo mundo espera na fila e que aquele estrupício que entrou atrás dela deveria ir lá para o final.

A fura-fila cacarejou um pouco, como se estivesse certa, mas não saiu dali.

Beleza! Vou no próximo para sentar perto da janela. Nessa hora murmurava alguns versos avulsos de Raindrops Fallin' on My Head...

As duas entraram no ônibus que chegou e pensei: "oba, vou ser o primeiro da fila". Mas minha expectaviva foi adiada, porque novamente uma figura aparentando todo garbo e elegância do mundo entrou na minha frente, com nariz empinado, como se fosse dona por direito daquele espaço de sei lá, meio metro quadrado.

Blasfemei: agora já é palhaçada, né?


Ônibus profano curitibano, da linha 666

Passei à frente dela e fiquei mais perto da plataforma de embarque, para conseguir entrar no próximo ônibus (o terminal já estava cheio).

Senti um tapinha nas costas. "Garoto, a fila é lá atrás"...

Meu! Eu sou um cara educado... garanto que se eu tivesse furado a fila, ia pedir desculpas e ir para o final da fila quietinho. Mas cacilda, já fazia uns quinze ou vinte minutos que eu que estava ali!

Na hora esqueci o princípio cavalheirístico de que as mulheres sempre tem preferência e disse:

"Minha senhora, você é a segunda pessoa que fura a fila na minha frente! Preciso ir trabalhar!"

Ela balbuciou algo baixinho, mas eu não sai dali.

Entrei no ônibus na frente dela. Ao fundo, pessoas que estavam ali há mais tempo me olhavam com aprovação e balançam a cabeça com ar positivo de quem diz mentalmente: "é isso aí, rapaz! pode crer!", ao passo que quem estava ali a menos tempo devia estar pensando: "que cara mal educado!".

E no ônibus vim meditando exatamente isso: teria realmente <i>eu</i> sido o mal educado, por não dar preferência àquela lady, com certamente algumas primaveras mais vividas do que eu, ainda que isso resultasse em chegar atrasado no expediente de hoje?

Ou será que estava certo, sendo homem e ainda assim não ter dado preferência àquela jararaca astuta, que não era sequer uma senhora de idade, nem estava doente e se arrastando, e ainda por cima furou a fila, passando para trás outras pessoas além de mim?

No fim das contas, acabei chegando aqui me sentindo o mais mal educado da história, com a consciência um pouco pesada por ter deixado de lado a minha educação inglesa, que ultimamente não tem sido uma via de mão dupla.

E como cristão convicto, o melhor que consegui fazer foi garantir em prece que ia compensar fazendo uma boa ação hoje, assim que tivesse uma oportunidade.

 

Acho que volto em pé no ônibus quando for para casa ou algo assim.

E vou manter o nível, porque hoje é apenas <b>segunda-feira</b>...

 

 

Pequena crônica de um dia de chuva

Imagem em: http://www.cranbrookart.edu/museum/images/springsteen/bruce_pam_hiway.jpg

Era início da quarta-feira; 10 de junho.

Amanheceu escuro, chovendo. Havia chovido a noite toda, desde as vinte horas do dia anterior.

Não tinha notícias dela desde a última tarde. Lembrava de cada bom momento, até dos que, por ventura, não tivessem acontecido.

Lembrava de Shakespeare. "O tempo é uma eternidade para os que amam..."

Interrompia. Seus pensamentos se misturavam, se confundiam.

A imaginava dançando na lama, de braços abertos, como uma linda miragem.

Deixava escapar um sorriso quando lembrava de seu rosto ao perceber que estava sendo observada. Chamava com as mãos para que dançasse junto. Corria até sua direção, o puxava para o meio do campo, e passavam o resto do dia juntos, às vezes sentados à margem do lago esperando o dia ir embora.

Era estranho poder se esconder de todos, menos de si.

Na varanda atrás da casa da fazenda, pingos de chuva criavam cristais coloridos e uma sinfonia ao bater nas plantas e nos pilares, enquanto estava sentado, de pernas sobrepostas; segurava uma caneca de café.

Ficaria louco, se essa fosse a condição para tê-la por perto.

Mas preferiu deixar as malas no canto da porta esperando o taxi até o aeroporto. Não podia se esconder, não podia.

Mas talvez pudesse deixar suas lembranças de lado, para ter condições de pensar com a cabeça fria... ou ao menos poder ter um novo começo.

Começava mais uma tarde, quando iniciou seu plano de abdicação: abdicar de suas lembranças, de sua luta, de sua vontade de fazer tudo por alguém.

Então, ao partir, cantava uma música triste, não conversava. Sentia-se envelhecer.

Viajou molemente pelas estradas secundárias, cheia de árvores grandes e casas abandonadas.

Pediu ao motorista que parasse na velha casa após a curva. Desceu na chuva, com passos lentos, abriu um portão enferrujado.

Num caminho de pedrinhas, um jardim de flores vermelhas e amarelas parecia querer se despedir.

Foi até a porta, tirou uma carta do bolso do casaco; a chuva manchava as letras junto com alguma lágrima perdida.

Passou o papel por baixo da porta, e ficou parado ali por uns instantes.

Eram lembranças, eram palavras, que hora deixou de falar, ora se arrependeu por ter falado.

"O tempo é uma eternidade para quem ama".

Voltou para o carro.

Da janela, alguém de olhos tristes observava sua partida, via um sonho indo embora cada vez mais longe.

Cada vez mais longe. Abaixou-se e pegou com carinho a carta. Olhou mais uma vez pela janela, porém, nada mais viu.

Em um taxi saindo dali, no banco de trás, apertava com toda a força uma fotografia antiga, como se fosse seu tesouro mais precioso.

Foi visto pela última vez na curva da estrada. Seguiu seu rumo, incerto; porém talvez fosse a única coisa certa a fazer, enfim.

Autor: Thiago Zimermann - sem vontade de copiar matérias de outros sites, decidiu escrever seus próprios textos para o deleite dos caros leitores...