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A nobreza do ato e o Golpe de Misericórdia

Há alguns meses estava lembrando do filme Os Três Mosqueteiros, da Disney, que é um dos meus favoritos. Aí, estava pensando numa cena onde a personagem Sabine de Winter (Rebeca de Mornay) está prestes a levar um tiro de Athos (Kiefer Shuterland), e por isso diz: “Piedade. Atire no coração”. Apesar de soar um tanto poético, nós sabemos bem que evitar o sofrimento, nesse caso, seria dar um tiro bem no meio da cara, e não exatamente no miocárdio. Então ficou a pergunta: onde estava a piedade do tiro fatal?

 

Cena do Filme "Os Três Mosqueteiros, da Disney (1993)

Bom, deixando um pouco de lado essa história do filme, fiz uma pesquisa a respeito de conceitos e fatos históricos menos conhecidos da época.

Atire no coração: equivalente ao golpe de misericórdia
O golpe de misericórdia, chamado “coup de frâce” em francês e “mercy shot” em inglês, era o golpe final, que era dado como misericórdia no sentido de acabar com o sofrimento de alguém ferido – soldados, oponentes, amigos – com ou sem o consentimento da vítima.

Seria uma decisão um tanto complicada tirar definitivamente a vida de um amigo, por exemplo; mas, face o sofrimento de alguém mortalmente ferido que ainda está agonizando, seria realmente uma decisão de extrema piedade e nobreza.

Por que, na literatura clássica, o coração muitas vezes é relacionado ao golpe de misericórdia?
Hoje sabemos que, apesar de ser impossível sobreviver sem um coração, e praticamente impossível sobreviver depois de ter este órgão muito comprometido, nossas funções vitais estão relacionadas a outros órgãos, principalmente o cérebro, que inclusive, em sua falência, é usado para constatar a morte em muitos casos.

Mas, há séculos atrás, o populacho via as coisas de outra forma. Talvez, por ter-se um conceito de que nosso coração figurativo é responsável por nossas emoções e fontes de vida, foi-se associado também o coração literal com as fontes de vida de um ser. Atirar no coração, seria, portanto, dar uma de morte rápida a alguém.

Só isso?
Na verdade, não. As mesmas questões de nobreza que envolviam a misericórdia também relacionavam à dignidade de um ato fúnebre.

Uma pistola clássica, que infelizmente eu desconheço o calibre, podia ser projetada para disparar bolotas de chumbo impulsionadas por uma carga considerável de pólvora. Imaginem o estrago que isso causaria na cabeça de uma pessoa!

Por isso, atirar no coração também seria uma forma de proporcionar uma certa dignidade ao enterro do indivíduo, que poderia inclusive ter um guardamento com o caixão aberto ou redomado.

 

Enterro de um bispo, imagem antiga retratando bem que os
funerais dignos poderiam ser feitos com o corpo exposto

 

Então, quando você ler ou ouvir esta expressão em algum lugar, não precisa mais pensar: "que besteira, atire logo na cabeça!"

Este post foi preparado mais ou menos a uns quatro meses, e tinha decido não postar, por parecer um antro de cultura inútil à uma primeira leitura.

Mas decidi postar após ver durante os últimos meses a falta de consideração que tem-se apresentado no geral com a vida.

Espero que esta leitura transmita uma mensagem de que até quem não tem mais esperança de ser salvo merece ter a sua vida e dignidade respeitada. Pouca vida ainda é vida.

Desconheço os créditos das imagens. O texto é meu.