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Pequena crônica de um dia de chuva

Imagem em: http://www.cranbrookart.edu/museum/images/springsteen/bruce_pam_hiway.jpg

Era início da quarta-feira; 10 de junho.

Amanheceu escuro, chovendo. Havia chovido a noite toda, desde as vinte horas do dia anterior.

Não tinha notícias dela desde a última tarde. Lembrava de cada bom momento, até dos que, por ventura, não tivessem acontecido.

Lembrava de Shakespeare. "O tempo é uma eternidade para os que amam..."

Interrompia. Seus pensamentos se misturavam, se confundiam.

A imaginava dançando na lama, de braços abertos, como uma linda miragem.

Deixava escapar um sorriso quando lembrava de seu rosto ao perceber que estava sendo observada. Chamava com as mãos para que dançasse junto. Corria até sua direção, o puxava para o meio do campo, e passavam o resto do dia juntos, às vezes sentados à margem do lago esperando o dia ir embora.

Era estranho poder se esconder de todos, menos de si.

Na varanda atrás da casa da fazenda, pingos de chuva criavam cristais coloridos e uma sinfonia ao bater nas plantas e nos pilares, enquanto estava sentado, de pernas sobrepostas; segurava uma caneca de café.

Ficaria louco, se essa fosse a condição para tê-la por perto.

Mas preferiu deixar as malas no canto da porta esperando o taxi até o aeroporto. Não podia se esconder, não podia.

Mas talvez pudesse deixar suas lembranças de lado, para ter condições de pensar com a cabeça fria... ou ao menos poder ter um novo começo.

Começava mais uma tarde, quando iniciou seu plano de abdicação: abdicar de suas lembranças, de sua luta, de sua vontade de fazer tudo por alguém.

Então, ao partir, cantava uma música triste, não conversava. Sentia-se envelhecer.

Viajou molemente pelas estradas secundárias, cheia de árvores grandes e casas abandonadas.

Pediu ao motorista que parasse na velha casa após a curva. Desceu na chuva, com passos lentos, abriu um portão enferrujado.

Num caminho de pedrinhas, um jardim de flores vermelhas e amarelas parecia querer se despedir.

Foi até a porta, tirou uma carta do bolso do casaco; a chuva manchava as letras junto com alguma lágrima perdida.

Passou o papel por baixo da porta, e ficou parado ali por uns instantes.

Eram lembranças, eram palavras, que hora deixou de falar, ora se arrependeu por ter falado.

"O tempo é uma eternidade para quem ama".

Voltou para o carro.

Da janela, alguém de olhos tristes observava sua partida, via um sonho indo embora cada vez mais longe.

Cada vez mais longe. Abaixou-se e pegou com carinho a carta. Olhou mais uma vez pela janela, porém, nada mais viu.

Em um taxi saindo dali, no banco de trás, apertava com toda a força uma fotografia antiga, como se fosse seu tesouro mais precioso.

Foi visto pela última vez na curva da estrada. Seguiu seu rumo, incerto; porém talvez fosse a única coisa certa a fazer, enfim.

Autor: Thiago Zimermann - sem vontade de copiar matérias de outros sites, decidiu escrever seus próprios textos para o deleite dos caros leitores...